Apenas um tiro

A moça fez o exame e à tona veio a confirmação. A felicidade grande agora pairava no lar daquela família. Eles teriam um bebê. O sonho de qualquer casal. Os dias eram mais bonitos, o por do sol mais belo, e até a televisão ficou mais suportável. A cada chute que ela sentia era algo para ser comemorado. Foi preparado o enxoval do bebê que seria tanto amado. Como de presentes para aquele bebê, ela começou a escrever cartas para um dia as entregar.


"Caro filho amado" era como sempre começava as cartas. "Hoje foi um grande avanço para nós nesse mundo, tive algumas complicações com você aí dentro, mas coloquei minha mão em cima de você e fiz uma prece. As dores pararam e as coisas se estabilizaram", "Filho, estamos com problemas em decidir seu nome, seu pai quer algo mais sobre um grande guerreiro e eu quero algo mais angelical, já que você veio trazer luz a essa família que tanto clamava por ajuda", "Hoje eu sonhei com você, sonhei que você já estava maior e corria por um campo, não conseguia ver seu rosto mas sentia que estava feliz, parece que tudo vai dar certo. Fique bem por aí, para quando esse dia chegar eu poder te pegar no meu colo e te abraçar com toda a minha força. Você nunca será desamparado." Cartas escritas à mão com o mais belo e profundo sentimento. Sempre com um ar de felicidade e animação, ansiedade e ao mesmo tempo paciência.


As semanas foram se passando e o grande dia chegou. Ela então, antes de ir para o centro cirúrgico, escreveu sua última carta antes da criança pela primeira vez da o ar da graça.


"Filho, acorde! Acorde! É hoje meu pequeno, é hoje que eu vou te conhecer, sentir seu cheiro, sua pele, os batimentos do seu coração, sua respiração. É hoje que a pessoa que deu luz a minha vida será apresentada a mim. Não tem ideia da minha animação, ou talvez você sinta o mesmo daí, apesar de não ter ideia do que está acontecendo. Desculpe te tirar desse lugar que você tanto gosta, desculpa pelas besteiras que comi e te fizeram mal, desculpa os dias que mamãe chorou e te passou um pouco da tristeza. Mas te prometo que aqui do lado de fora tem coisas boas pra se ver e sentir, garanto que não lhe faltará amor pra viver. Estarei do seu lado." Com todo carinho o último ponto final foi escrito e a tal mulher ganhou a criança.


As cartas cessaram, mas o amor por ele ganhava a todos pela maneira que era demonstrado e sentido. O menino foi crescendo e amadurecendo, foi vendo do que a vida é feita e foi aprendendo. Ele sentia cada gesto bonito que seus pais faziam por ele, mas infelizmente a vida o encaminhou para outro lado. O mesmo não se sentia pleno e nem feliz. Havia um buraco incapaz de ser preenchido pelos pais, havia uma dor incurável por remédios da terra. Ele vagava por aí como outro qualquer, apenas mais um grão em meio a uma tempestade de areia.


A dor se estendia pelo corpo, passava a ser maior a cada decepção que a vida insistia em colocar em seu caminho. Ele tentou ver o lado positivo, mas os negativos sempre superavam. Os negativos sempre eram maiores. Ele se culpava por ter recebido tanto amor e ter virado um assassino, e dos melhores vistos, que calculava friamente a hora e a data certa para ninguém desconfiar, para ninguém suspeitar. Ele deixava marcas de socorro por onde passava. A história vai tomando um rumo triste pela mesma proporção que a vida colocava empecilhos para um sorriso sincero no rosto do mesmo. Ele desconfiava que o amor nada mais era do que a necessidade humana de suprir uma carência exigida pelo corpo, uma carência de ter algo para poder viver. Desde sempre ele teria calculado uma morte, coisas de anos e seria a morte perfeita. A mais bela de todas, vista por ele - é claro. E quando o tempo para o grande dia se aproximava, algo aconteceu.


O menino foi até a rodoviária em busca de um futuro melhor. Um homem desceu e veio em sua direção. Uma arma o apontou, mirando diretamente na sua cabeça. Apertou o gatilho, mas ninguém, além dele, ouviu o disparo. Ninguém, além dele, sentiu a sensação.


A bala adentrou em sua mente e o fez paralisar. Seu coração disparado, e suas mãos já geladas. Depois de um tempo, o homem que havia atirado o sorriu e reciprocamente recebeu outro sorriso. Se abraçaram. A bala da paixão tinha atingido em cheio, deixou ele mais vivo e mais forte. Dali em diante ele pode sentir realmente a vida e então sua profissão de assassino se cessou.


O menino parou de matar. Ele não matava mais os seus sonhos, não sufocava mais os dias felizes, e muito menos matava as amizades que agora puderam se aproximar. Hoje ele pode sorrir, já que uma bala o salvou de seu maior assassinato.


Onde sua vítima era ele mesmo.



Texto escrito por Gabriel Ferreira, @gabrielferreira96

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