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Astrid Lacerda trabalha com finanças desde 2017. É mentora de finanças para mulheres, palestrante e fundadora da WOMA.

 

Já cansada de ver estratégias de gestão financeira confusas e ineficientes, desenvolveu uma metodologia que ajudou diretamente – apenas em seu trabalho de consultoria – mais de três mil clientes. Atendeu mulheres de diferentes idades, profissões, classes sociais, provando que o seu trabalho contribuía para a evolução financeira delas. Foi mentora financeira de empreendedoras como Camila Vidal, Mina Winkel, Rafaela Vidal, Thálassa Coutinho, Júlia Horta e Lua Delpi.

Atualmente, atua como educadora financeira e ensina finanças pessoais e finanças para empreendedoras com sua própria metodologia, cursa Teoria Psicanalítica: clínica e cultura e estuda a relação da mulher com o dinheiro. Acredita a emancipação financeira da mulher é o que da autonomia e a força necessária para que todas possam lutar por seus direitos.

"NÃO HÁ QUALQUER TIPO DE IGUALDADE SEM QUE HAJA IGUALDADE FINANCEIRA."

A minha história com finanças foi marcada por uma mulher fugindo de um relacionamento abusivo, sendo ameaçada de morte e com duas filhas para criar. Ela era órfã, então teve apenas a si mesma quando isso aconteceu. Quando eu digo fugir, é porque essa mulher abriu mão de tudo que havia construído e precisou recomeçar do zero em uma cidade no Nordeste para conseguir – literalmente – sobreviver com duas crianças. Eu tinha 11 anos e essa mulher era minha mãe.

 

Você pode achar loucura ela ter renunciado seu patrimônio - tudo o que tinha construído durante a vida, mas na minha percepção ela comprou a própria liberdade. Ela me ensinou com a vida e com as palavras a não depender de ninguém, nem dela mesma – porque ela não tinha mais os pais para contar. Aos 17 anos, quando tomei a decisão de sair de casa e voltar para Minas Gerais para fazer faculdade, ela sentou comigo e me ensinou tudo o que eu precisava saber para cuidar do meu dinheiro, mas não só isso, ela me mostrou que eu jamais deveria deixar de fazer algo por conta de alguém. Eu ainda estava relutante de me mudar para longe dela e da minha irmã, porque desde então, nossa família era apenas nós três. Pode não ter sido fácil para mim, mas eu não consigo imaginar o quão difícil foi para minha mãe. Ela chorou todos os dias antes de dormir durante três meses. ​ Uma frase que ela sempre repetia em várias situações era: você tem essa opção. Até recentemente, eu não fazia ideia do peso que a palavra “opção” tinha na minha vida. Eu tive a sorte de crescer com uma mãe me ensinando sobre como me organizar financeiramente, a usar o cartão de crédito, a investir, a viajar, a me arriscar, a correr atrás daquilo que eu acreditava, e o mais importante, eu tive uma mãe que investiu na minha educação. Essa foi a minha realidade. Mas essa não é a realidade da maioria das mulheres.

 

Eu tive o privilégio da escolha.

 

E por mais que você acredite que qualquer pessoa hoje pode escolher, não é bem assim. Quanto mais possibilidades você tem, mais livre você é. Então quando eu digo que dinheiro traz liberdade, é porque ter o poder de escolher, te liberta. ​Dinheiro torna tudo diferente, mas não te torna diferente. Ele não vai mudar quem você é, mas vai te ajudar a descobrir e a experimentar todo e cada pedaço da sua própria individualidade.

 

Dentro das possibilidades que eu tinha, as escolhas que tomei escreveram a minha história, e continuarão escrevendo. ​Elas me direcionaram para o trabalho de educação financeira voltado para mulheres. Em 2016, comecei auxiliando amigas próximas a organizarem o caos que suas vidas financeiras se encontravam, mas em algumas vezes, o cálculo não fechava. Percebi que lidar com dinheiro ia além de fórmulas matemáticas, conceitos e números, me deparei com um buraco muito mais fundo, e eu precisava entender a profundidade da nossa relação com o dinheiro. Ou melhor, da relação da mulher com o seu próprio dinheiro. Aos 24 anos, me vi cursando uma nova graduação: Psicologia. Meu objetivo não era clínica, e sim entender o que eu ainda não conseguia explicar dentro do meu trabalho. Durante a faculdade, encontrei na Psicanálise o aporte teórico que precisava para seguir com meu estudo da relação da mulher x dinheiro com interferências diretas na emancipação financeira da mulher. Tomei a decisão de abrir mão da graduação de Psicologia e iniciar a Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica. O meu trabalho com finanças não é sobre números, promessas de riqueza ou sobre uma mentalidade próspera e abundante. É sobre como fatores socioculturais e históricos influenciam diretamente na maneira a qual lidamos com nosso dinheiro e como nós mulheres precisamos aprender a nos priorizar e entender que ninguém, além de nós mesmas, é responsável em prover a nossa própria segurança.

 

Biologicamente aprendemos de maneiras distintas, ou dentro do nosso meio é nos ensinado de maneira distinta? Da nossa parte existe uma falta de interesse ao aprender sobre finanças ou seria uma falta de tempo? O quanto a carga mental, relacionada ao papel social de cuidadora atrelado a mulher, influencia na forma de priorizar-se como indivíduo? E qual a sua relação com a culpa? Firmou-se igualdade jurídica entre homens e mulheres, onde os direitos de ambos se tornaram iguais, a mulher passou a dividir com o homem papéis que antes eram exclusivos a eles, como o de prover, mas foi dividido os outros papéis que eram exclusivamente da mulher para que ela pudesse ter tempo de exercer suas novas funções? A falta de tempo para si mesma e a dupla jornada não seriam consequências dessa lacuna que não foi preenchida pela figura masculina? São tantas questões que eu tomei como minha causa a emancipação financeira da mulher e desde então tenho feito o possível para levar o conhecimento que toda mulher precisa para não se submeter a nada menos do que ela merece.

ASTRID LACERDA

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